Mulheres da nossa terra

Mulheres da minha Terra

Elas não traziam armas em punho, mas lutavam sempre por seus ideais. Algumas buscavam desafiar os limites entre sua condição de mulher – numa época em que eram reduzidas às quatros paredes de um lar – e o que realmente acreditavam e tinham como certo e justo. Outras, através de sua arte e de seu dom natural, espalhavam alento e beleza por onde passavam, marcando trajetórias e corações. E, seja pela força de seus valores, pela intensidade de seus talentos ou pela pertinácia e beleza de seus atos, algumas mulheres fizeram (e ainda fazem) a história de uma terra repleta de filhos ilustres. Infelizmente, não temos espaço suficiente para prestar a devida homenagem a todas elas, mas selecionamos nove sorocabanas, entre elas, algumas já falecidas que, de alguma maneira, deixaram registrada sua marca, como impressões digitais, por todos os cantos, caminhos e ares de Sorocaba.

APARECIDA AMARAL PIRES, benzedeira

Sua missão foi trazer alívio e cura aos aflitos através da fé. Aparecida Amaral Pires, a famosa benzedeira Vó Cida, da Vila Amélia, partiu no ano passado, aos 96 anos, deixando uma lacuna no coração de uma legião de fiéis devotos. Por dia, ela chegava a atender uma média de 50 pessoas, que buscavam em sua reza um pouco de paz, união, saúde, prosperidade e, principalmente, proteção contra os males da vida moderna. Entre suas simpatias reinavam as contra mau-olhado, inveja e desilusões amorosas. Sorocabana, Aparecida teve cinco filhos homens, 16 netos, cinco bisnetos e dois tataranetos. Quando criança, tinha saúde frágil, chegando a desmaiar por várias vezes. Aos 12 anos, descobriu que tinha um dom especial: o de ajudar pessoas através da oração. Num dia, ela pegou nos braços uma criança aos prantos. Levou-a até o quintal de sua casa e, andando pelo chão de terra, começou a orar. Aos poucos, a criança foi se acalmando até que parou de chorar. Desde então, Aparecida passou a benzer e, aos poucos, sua saúde foi se estabilizando. De seus 96 anos de vida, 84 foram dedicados ao próximo. Pessoas de todas as idades e classes sociais foram benzidas por ela, inclusive animais. Também, durante 20 anos, foi ela quem promoveu a festa de Cosme e Damião na cidade, com a participação de bandas e artistas de circo da capital paulista, além de distribuição de doces para as crianças. Ao longo de sua vida, teve diversas profissões e acabou aposentando-se como operária fiandeira da Fábrica Santa Maria. Aparecida foi ainda integrante do Movimento Negro Sorocabano.

DIVA PRESTES, médica e política

Voraz defensora da democracia, a médica e política Diva Maria Prestes de Barro Araújo sempre preferiu o diálogo às práticas autoritárias. Formada em medicina pela Usp, em 1974, especializou-se em tratamento de dependência química pela Unifesp, em 1999. Na década de 80, ingressou na política e elegeu-se vereadora em 1982, sendo uma das duas primeiras mulheres eleitas para a Câmara Municipal de Sorocaba, depois de Salvadora Lopes, em 1947.
Em seu primeiro ano de mandato passou a integrar o Conselho da Condição Feminina, recém-criado pelo então governador André Franco Montoro. Dois anos depois, graças ao seu trabalho junto ao colegiado e à parceria com a Delegacia Regional da Cultura de Sorocaba, a cidade recebeu o seu primeiro ciclo de debates sobre os direitos da mulher. Em 1995, Diva foi convidada pelo então deputado estadual Renato Amary, a ser candidata a vice-prefeita de Sorocaba, chegando a assumir, por várias vezes a prefeitura, durante a primeira gestão de Amary (1996 a 1999). Como médica e administradora, atuou na direção regional da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo em Sorocaba, no Conjunto Hospitalar de Sorocaba e na Vila Serenidade. Diva faleceu no dia 8 de dezembro de 2005, aos 57 anos. Em sua homenagem, o prefeito de Sorocaba, Vitor Lippi, apresentou à Câmara Municipal, em abril de 2007, o projeto de lei intitulado Diva Maria Prestes de Barros Araújo – Centro de Referência de Saúde da Mulher de Sorocaba. Em março de 2008, foi então inaugurado o Centro de Atendimento à Mulher e Referência Cirúrgica à Policlínica Municipal “Diva Maria Prestes de Barros Araújo”, unidade mais conhecida como Hospital da Mulher.

GUARACIABA MALHONE, artista circense

Foi nos fundos de um picadeiro que ela veio ao mundo, na cidade de Piraguaçu Paulista. Quinze dias depois já estava no palco, sendo aplaudida nos braços de sua mãe. Guaraciaba Malhone, atriz e artista circense, viveu uma vida inteira dedicada à magia do circo. Filha do palhaço Pirulito, recebeu uma bela homenagem aos 2 anos de idade. O circo que seu pai havia inaugurado foi batizado com o seu nome. Quatro anos depois, vestida de palhaço, ela já arrancava risos da platéia. Aos poucos foi aprendendo com a avó a arte da acrobacia. E aos 13 anos encontrou sua verdadeira paixão: o circo-teatro. O circo Guaraciaba passou por várias cidades do Estado de São Paulo, mas foi em Sorocaba que a artista diz ter vivido os melhores anos de sua vida. “Chegamos em Sorocaba em 1963 e fomos muito bem recebidos. Fizemos história aqui e nós só temos a agradecer a cidade”, diz. Saudosa, ela se recorda dos dias agitados em que a trupe apresentava uma peça diferente por dia, em temporadas que chegavam a reunir milhares de pessoas na platéia. E foi também debaixo de uma lona que Guaraciaba se apaixonou pelo então palhaço Xicuta. Logo casou-se e teve com ele três filhos biológicos e dois não biológicos, que deram continuidade à arte ensinada pelos pais. Viúva há 15 anos, hoje Guaraciaba raramente se apresenta. Porém, quando convidada, junto com a família, revive as emoções do circo-teatro. Recentemente, com o apoio da Linc (Lei de Incentivo à Cultura), o tradicional Circo Guaraciaba novamente ergueu sua lona para comemorar seus 60 anos de existência. Por uma temporada de seis meses, em 2006 o universo de magia, pureza e simplicidade do circo foi recriado na Biblioteca Infantil, encantando adultos e crianças. “A saudade é imensa e a emoção de poder reviver o que nós levávamos para o público não tem tamanho.”

JANICE VIEIRA, bailarina e coreógrafa

“No momento em que a gente dança, alguma coisa mágica acontece. Talvez um transe, um êxtase, não sei”. A frase foi dita por alguém que viveu uma vida toda dedicada à arte de dançar. Coreógrafa e dançarina, Janice Vieira foi um marco da dança moderna em Sorocaba. Em 1963, montou a primeira academia de dança da cidade, onde grandes referências da área, como Mônica Minelli e Ismênia Rogick, se formaram. Com seu grupo de alunos, propagou o nome de Sorocaba por todo o Brasil, fazendo apresentações de coreografias em programas de TV de emissoras como Tupi e Cultura. Hoje, aos 68 anos de idade, Janice define sua carreira como uma sucessão de acontecimentos que a encaminharam a algum lugar. “Hoje penso que era muito incomum uma menina pobre numa cidadezinha do interior começar a estudar balé”, diz. E foi assim que tudo começou. Aos 10 anos de idade, época em que já tocava acordeão, Janice foi assistir uma apresentação de balé em Itapetininga, cidade onde morou até mudar-se para Sorocaba, aos 13 anos. Ficou encantada ao ver uma jovem dançando na ponta dos pés. “Era a Miriam Rabello, com quem passei a ter aulas de dança. Nesse mesmo período, comecei a fazer minhas próprias coreografias e desenvolver a criação em dança”, conta. Nos anos 70, ao lado do bailarino Denilto Gomes, Janice marcou seu nome na história da dança, ao liderar o grupo Pró-Posição Ballet Teatro, responsável pela produção de dois espetáculos revolucionários da dança moderna brasileira: Boiação (1977) e O Silêncio dos Pássaros (1978). Ela também foi docente em várias universidades, autora de diversas coreografias expressivas, além de ter recebido muitos prêmios. Atualmente desenvolve projetos ao lado da filha, Andréia Nhur, e atua no resgate do material do Grupo Pró-Prosição, além da criação sonora e figurinos das peças do grupo Katharsis da Uniso.

LANDA LOPES, artista

Versatilidade foi uma das suas maiores qualidades, rendendo-lhe o título de “Mulher Multimídia”. Repórter, atriz de cinema, apresentadora de televisão, escritora, poetisa, cantora, compositora, artista plástica e deputada federal suplente. Descendente de imigrantes italianos, Landa nasceu em Mairinque, mas foi em Sorocaba que ela viveu grande parte de sua vida, sendo integrante da Academia Sorocabana de Letras e tendo recebido o título de Cidadã Sorocabana pela Câmara Municipal de Sorocaba.
Em 1952 publicou seu primeiro livro de poesias, As Quatro Volúpias, prefaciado pelo romancista Afonso Schimidt, que a definiu como “a mulher das sete graças”. Contista, sua obra O Sonho recebeu um dos prêmios do II Concurso Literário Sudameris. Além do romance Negra, publicado em 1999 pela TCM, três outras obras de sua autoria fazem parte do acervo da Biblioteca do Congresso Norte-Americano. Landa também foi a primeira mulher brasileira a produzir cinejornais, em parceria com seu marido, o cinegrafista Juan Martinez Marins Lopes. No cinema, atuou em filmes como O Tigre, Paixão de Bruto, Não Matarás, Joelma, Vigésimo Terceiro Andar, Erótica, entre outros. Foi também produtora associada do filme Vidas Nuas. Como cantora, formou um trio com o marido Juan e Nuno Lopes, apresentando-se em cassinos e casas de show. O seu acervo de composições próprias conta com mais de 400 músicas e um número indeterminado de textos teatrais, tendo também sido fundadora da Sicam (Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais) e integrante da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. No dia 24 de novembro de 2006, aos 87 anos, Landa faleceu, vítima de complicações pulmonares.

MARIA GERMANI, cantora

Figura emblemática da boêmia em Sorocaba, a cantora Maria Germani era dona de uma voz de veludo e de um talento singular. Pioneira, ela foi uma das primeiras cantoras a introduzir a música ao vivo nas noites sorocabanas, na década de 70. Em seus 35 anos de carreira, tornou-se conhecida nacionalmente e admirada por inúmeros fãs. O talento de Maria começou a despontar cedo, aos 5 anos de idade. Em Angatuba, sua terra natal, ela ganhou seu primeiro concurso interpretando um jingle para um produto farmacêutico. Desde então, Maria não parou mais de cantar e fez da arte o seu projeto de vida. Em Sorocaba, conheceu o maestro e pianista Luiz Candotto Neto, o Luizito, com quem se casou 12 anos depois e teve duas filhas. Juntos formaram o conjunto Os Cafonas e, mais tarde, o Trio de Ouro. Apesar de a música ser a sua maior paixão, não era da arte que Maria tirava o seu sustento. Durante o dia, era funcionária pública em uma escola estadual. À noite, trocava as roupas formais de secretária por exuberantes vestidos de gala. Vaidosa, jamais entrava em cena sem estar impecavelmente vestida. “Uma vez ela estava indo fazer um show e, no caminho, percebeu que não havia colocado os brincos. Não pensou duas vezes, voltou para buscá-los”, conta a filha Maria Helena Germani Notari. Ao longo de sua carreira, Maria recebeu diversos troféus e participou de vários programas de televisão. Gravou um LP compacto pela produtora Novo Tempo Comunicação, intitulado Grandes Interpretes na voz de Maria Germani. Aos 62 anos, no dia 3 de abril de 1995, faleceu, deixando um imenso vazio nas rodas de serestas da cidade.

MARISA PELLEGRINI MACAMBYRA, bibliotecária

Ela se dedicou à Biblioteca Municipal de Sorocaba por quase 30 anos. Esteve à frente de diversos e importantes trabalhos culturais na cidade, sempre promovendo o gosto pela leitura e pela escrita. A sorocabana Marisa Pellegrini Macambyra, de 57 anos, foi uma das bibliotecárias que revolucionou e deu vida nova à biblioteca de Sorocaba. Ao lado de Marilda Bauaguartner, ela conseguiu modernizar o espaço e transformá-lo num ambiente cultural. “Nós iniciamos uma série de atividades, como palestras, lançamentos de livros, festivais de cinema, oficinas de literatura e teatro, exposições de poesia e fotografia, entre outras. Naquela época, Sorocaba não tinha nada disso”, conta. Entre os principais projetos que idealizou destacam-se o Poesia em Debate, Mural de Poesia e Graffite-se, com o grupo “Tupinãodá”. Marisa também foi uma das fundadoras do Cinebando Cineclube, que funcionou entre os anos de 1984 e 1986, e do Grupo Imagem Núcleo de Fotografia e Vídeo de Sorocaba, ainda em atividade. “O Poesia em Debate durou mais de 20 anos e percorreu vários bairros da cidade, levando inúmeras atividades dentro da área da poesia. Com a ajuda de várias pessoas, sinto que consegui movimentar a cultura de Sorocaba e contribuir para a proposta de que a arte pode ser feita em qualquer lugar, principalmente em uma biblioteca”, destaca. Aposentada há dois anos, atualmente Marisa dedica algumas horas do seu tempo em um trabalho voluntário à biblioteca da escola estadual “Dr. Julio Prestes de Albuquerque”, o Estadão. “O hábito da leitura, além da informação e cultura que se adquire, é extremamente prazeroso”, conclui.

SALVADORA LOPES, militante comunista

Brilhante exemplo de dedicação às justas causas, Salvadora Lopes foi uma mulher à frente de seu tempo, destemida, rigorosa e perseverante. Nascida em Avaré, em 1918, e radicada em Sorocaba, aos 10 anos de idade passou a trabalhar em fábricas têxteis da cidade. Desde muito cedo participou de greves e mobilizações dos operários anarquistas e comunistas. Logo se tornou líder, chegando a organizar várias greves, como a dos Ferroviários em 1947 e, em 1949, pelo pagamento aos têxteis da concessão de aumento salarial de 40%, conforme decisão do Tribunal Superior do Trabalho, motivo pelo qual foi presa e processada. Ícone das lutas sociais e femininas, Salvadora foi também a primeira vereadora eleita em Sorocaba, em 1947, mas foi cassada no dia de sua posse, não chegando a assumir o cargo. Três anos depois, representou Sorocaba na Conferência Sindical do Sul, no Uruguai. No ano seguinte, candidatou-se à deputada federal e foi presa dias antes da votação. Em fins da década de 1950 e durante a ditadura militar, Salvadora não deixou de denunciar os desmandos, a exploração e a opressão. E, antes de falecer, recebeu inúmeras homenagens, como o título de cidadã sorocabana, em 2001, pela Câmara Municipal de Sorocaba, e os votos de congratulações da Câmara Municipal de Avaré pela publicação da sua biografia “Salvadora!”, escrita pelo historiador Carlos Carvalho Cavalheiro. Também foi tema de dois documentários produzidos pelo jornalista Werinton Kermes, Quem tem medo de Salvadora Lopes e Vídeo Memória. No dia 19 de dezembro de 2006, Salvadora deixou este mundo, aos 88 anos.

ZILÁ GONZAGA, radialista

Dona de uma das vozes mais conhecidas da rádio sorocabana, foi aos 18 anos que a radialista Zilá Gonzaga conheceu aquele que seria o seu inseparável e fiel companheiro: o microfone. Impulsionada por um sonho antigo, aos 16 anos decidiu pedir ao proprietário da antiga rádio Clube, hoje Boa Nova, que a deixasse cantar em sua emissora. Mas, como ainda não tinha experiência, conseguiu apenas o emprego de faxineira. Dois anos depois, trocou a vassoura pelo microfone e nunca mais se afastou dele, Na década de 50 Zilá começou a brilhar em radionovelas, como intérprete e autora, já na Rádio Cacique. Dez anos depois, deixou Sorocaba e trabalhou na Cacique de São Caetano e na rádio Record. De volta a Sorocaba, Zilá trabalhou por mais 10 anos na Cacique. “Fui convidada para fazer o programa sertanejo na rádio Ipanema. Quando acabou o programa fui para a rádio Líder, depois para a rádio Nova, até que voltei, novamente, para a Cacique, onde estou até hoje”. Nascida em Porto Feliz, Zilá chegou a Sorocaba aos sete anos de idade. Não teve filhos e nunca quis se casar. Vaidosa, não revela a idade. “Prefiro que as pessoas me deem a idade que quiserem”, diz. Apesar de já ter feito bodas de ouro em emissoras de rádio, Zilá ainda não “pendurou as chuteiras”. Ativa e super bem disposta, para ela, o microfone é como uma terapia. “Tem dias que não estou muito bem. Mas quando entro no estúdio, a disposição volta rapidinho”. Quando fala de sua carreira, seus olhos brilham. “A melhor coisa é quando a gente faz o que gosta. Amo minha profissão e me sinto muito gratificada pelo carinho dos ouvintes. Falo, sem receio, que isso tudo é um dom que Deus me deu”.

Por Vanessa Olivier [email protected]

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